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A imunidade do Varejo Essencial

Escrito por: Mauro Araujo Santos

Ainda não há uma definição precisa para o que chamamos de Varejo Essencial no Brasil. A necessidade de estabelecer um conceito surgiu em razão da pandemia de COVID-19, quando governos municipais e estaduais buscaram criar parâmetros para determinar quais atividades econômicas precisavam permanecer funcionando em meio à crise sanitária mundial.

Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) define o termo Varejo como toda a atividade econômica de venda de um bem ou um serviço para o consumidor final. Já o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) classifica o setor em Varejo Restrito (excluindo Veículos e Materiais de Construção), Varejo Ampliado (todos os bens de consumo) e Serviços em Geral.

A definição do que é Varejo Essencial foi determinante durante a pandemia para respaldar decisões políticas de abertura e fechamento do comércio em tempos de isolamento social.

A discussão sobre quais produtos e serviços são considerados essenciais não foi exclusividade do Brasil. Nos Estados Unidos, a Federação Nacional do Varejo (National Retail Federation – NRF) chegou a enviar uma carta ao presidente Donald Trump para estabelecer uma diretriz nacional de tipos de negócios considerados essenciais.

A própria NRF recomendou que fossem enquadrados como Varejo Essencial estabelecimentos que atuam na venda ou no fornecimento de alimentos, de suprimentos para animais de estimação e de produtos de consumo doméstico (limpeza e higiene pessoal). A recomendação também incluiu farmácias e serviços de saúde, lojas de varejo agrícola, postos de gasolina, lojas de suprimentos e consertos de veículos, ferragens, restaurantes e outras instalações que preparam e servem comida. No caso norte-americano, também foram considerados essenciais os negócios que operam com eletrônicos, telecomunicações e tecnologia móvel.

No Reino Unido, onde o primeiro-ministro Boris Johnson determinou em março um lockdown para conter a disseminação do coronavírus, o governo britânico também editou uma diretriz nacional para definir quais estabelecimentos podiam seguir com as portas abertas. Os negócios considerados não essenciais ficaram fechados por quase três meses na Inglaterra.

Apesar de vários países terem adotado diretrizes nacionais para orientar o mercado varejista e a própria população sobre o que é Varejo Essencial, alguns negócios ficaram numa zona cinza, a exemplo de lojas de eletrônicos, livrarias e hotéis. A orientação, na maioria dos casos, partiu de governos locais, como ocorreu no Brasil.

De maneira simplificada, quando falamos em Varejo Essencial estamos nos referindo à comercialização de produtos ou serviços que são indispensáveis para a nossa sobrevivência. Por isso, embora o conceito possa variar de região para região, há um consenso mundial de que os segmentos de Supermercados e Farmácias, por exemplo, não podem fechar as portas, especialmente durante uma pandemia. Afinal todo mundo precisa comer, beber, cuidar da higiene da casa e do corpo, além de tomar medicamentos e não interromper tratamentos de saúde.

De acordo com a mais recente Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE, as vendas no Varejo cresceram 5,2% em julho na comparação com o mês anterior. Foi o maior resultado para julho em 20 anos e a terceira alta consecutiva em 2020, com avanço de 8,5% em junho e recorde de 13,3% em maio. Entre as atividades com crescimento na comparação anual, a maior alta foi de móveis e eletrodomésticos (26,4%), seguida por artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (13,4%), e hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (9,9%).

As vendas do Varejo já retornaram ao patamar de fevereiro, antes do agravamento da disseminação da COVID-19. Os dados do IBGE revelam, no entanto, que a recuperação não é homogênea e está especialmente sustentada pelo segmento de Hiper e Supermercados (com peso acima de 50% na pesquisa). As grandes redes também venderam produtos de outros segmentos, como móveis, eletrodomésticos, livros, jornais e equipamentos de informática.

Os segmentos de Supermercados e Farmácias, considerados Varejo Essencial por excelência, foram atividades econômicas que não interromperam suas operações em nenhum momento da pandemia. Foram inclusive os dois únicos setores com avanços em março, quando o IBGE registrou queda de 2,5% nas vendas do comércio varejista, o pior resultado para o mês desde 2003.

Evidentemente que até o Varejo Essencial precisou se reinventar devido ao coronavírus. Medidas de segurança sanitária para funcionários e clientes tiveram que ser introduzidas rapidamente em lojas físicas. As vendas online também se consagraram como um importante canal para assegurar o distanciamento social. Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABCOMM), o faturamento do e-commerce brasileiro cresceu 56,8% neste ano e chegou a R$ 41,92 bilhões. O resultado reflete uma mudança de comportamento dos consumidores, que passaram a comprar mais via internet.

Ao contrário da maioria dos negócios no Brasil, atingida em cheio pela pandemia principalmente nos meses de março, abril e maio, os segmentos de Supermercados e Farmácias foram os que demonstraram maior resiliência durante a crise econômica gerada pela COVID-19. Esses segmentos de Varejo Essencial parecem estar imunes ao coronavírus ou pelo menos terem anticorpos para sobreviver sem grandes sequelas.

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